Antenor Gomes de Barros Leal (1903 - 2002) Icn_world

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Birthdate:
Birthplace: Fortaleza, Ceará, Brazil
Death: Died in Fortaleza, Ceará, Brazil
Managed by: Carla Assenheimer
Last Updated:

About Antenor Gomes de Barros Leal

Autobiografia

Deixei Fortaleza em dezembro de 1924. Eu era jovem e extremamente impulsivo, filho de pequenos proprietários de farmácia e sobrinho dos médicos José Dias e João Paulino de Barros LeaI Filho, residentes em Quixeramobim. Aos 10 anos já ajudava minha mãe a preparar a célebre "limonada de Léfort", fechava cápsulas amiláceas e fazia pequenos curativos.

Tinha alguma prática de hospital em Fortaleza, como assistente de um tio afim, alma de santo, Capitão médico Henrique Leite Barbosa e só pensava em trabalhar, vencer e casar.

É difícil falar no meu tio Henrique e deixar de lado alguns aspectos particulares de sua personalidade de fina flor. Meu nobre tio conservou intocável a educação primorosa de uma família tradicional. Em tempo nenhum transformou-se em militar de caserna e nunca o vi fardado; aliás, se tinha uniforme, não tive ocasião de admirá-lo.

Tratava seus subalternos como iguais e era inimigo de muitas continências. Arrastava levemente a perna esquerda e usava uma bonita bengala, grossa e com ponta dourada. O remate superior era o símbolo da Medicina, de ouro puro, presente recebido em um de seus aniversários.

Usava sempre roupas escuras e colete branco, com relógio Patek Philippe e correntão de ouro de um lado para o outro. Gostava, vez por outra, de camisa de peito duro e a gravata era de cor preta. Sempre o vi com chapéu de feltro na cabeça. Era um tanto calvo e dizia que usava chapéu constantemente porque “não quero levar sol no meu coco luzidio”. Conservava no dedo o anel de Esculápio, não por vaidade, mas para sua identificação como pessoa humana.

Muitas vezes me disse: “Meu filho, antes de ser médico, o homem tem que ser humano, sofrer e chorar com seus semelhantes”.

Entrava no quartel em hora impreterivelmente certa, com um riso muito seu, que às vezes se transformava numa caretinha que eu não achava feia. Gostava de sentir a amizade de seus soldados, a sofreguidão em seu derredor disputando na cara e coroa qual o felizardo que iria buscar o “cafezinho do Capitão”. Tomava o moca dando uns estalinhos na ponta da língua, devagarinho, dizendo meio dedo de prosa a cada soldado.

Enrolava entre os dedos um cigarro, do mais puro fumo baiano, o qual conservava num saquinho de borracha; acendia-o e soltava com muito gosto longas baforadas de fumaça...

Quando aparecia ao longe um graduado, franzia a testa e prevenia: - Cuidado, companheiros, que lá vem gente grande! Pés juntos e mão na testa!...

...Em 1925, cheguei em Boa Viagem como proprietário da única farmácia da cidade. 

A vaidade de apresentar ao público uma botica meio moderna, com vitrinas e grades reluzentes de verniz copal levara-me a arrumar com diligência os vidros de Saúde da Mulher, Bromil, Biotônico Fontoura, Água Inglesa, Elixir Mururé, Nogueira, Peitoral do Cambará, Xarope Roche, Ankilol, Panvermina, Anquilostomina, acompanhada da história de Jeca Tatu.

As injeções de Thiosol deixavam os braços com manchas azuis; a 914 vez por outra matava um cristão e a Aluetina número 1 e número 2 eram injeções como Thiosol e 914 usadas, contra a sífilis, indiferentemente das reações de Kahn, Kline e Wasserman. A “lues”, doença contagiosa produzida por um micróbio, o Treponema Pallidum, não poupa vida por gerações seguidas.

Havia também a exposição de pílulas, sabonetes e perfumes, dos quais o mais procurado pela classe média era o “Flor de Amor”.

Em Boa Viagem, ainda na década de 20, as distrações eram minguadas. Falava-se de política, jogava-se sinuca ou baralho, ou dedilhavam-se instrumentos de corda ao som de melodias apaixonadas. A chegada de um circo ou de cancioneiros com as suas violas, as quadrinhas amorosas e brejeiras, os desafios, as trovas e os sambas caipiras mudavam o aspecto triste da cidade. 

Em um dia da semana, havia reunião pública: era quando chegava a mala do correio, trazida em lombo de burro.

Junho e dezembro eram os meses desejados e aguardados com ansiedade.

As festas do Coração de Jesus e da Santa Padroeira tinham seus noiteiros escolhidos pelo vigário. Praças com lindas barracas, enfeitadas com palhas de coqueiros e bandeiras multicores, partidos encarnado e azul, prisões, jogos diversos, vendas de adivinhações e sortes e, no final do novenário, o sarau dançante na Casa da Câmara. Tudo isso fazia o modo simples de viver dessa e de outras cidades interioranas. Estávamos acostumados com o nosso cotidiano e assim vivíamos, com minha paz e tristeza.

Trechos do livro”Recordações de um Boticário”, de Antenor Gomes de Barros Leal

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Um cidadão benemérito

Faleceu no dia 15 de maio último (2002) o Dr. Antenor Gomes de Barros Leal, figura por demais conhecida na sociedade cearense e estimada por uma legião de amigos e admiradores, os quais soube conquistar em sua longa e profícua existência.

Dr. Antenor foi uma figura humana simplesmente privilegiada, o homem bom e justo de que falam os Evangelhos, de retidão e de firmeza de caráter sem contemporização. Transparente nas palavras e atitudes, encarnou as virtudes do cidadão de bem, que soube utiliza-se da profissão para um trabalho humanitário quase heróico, no exercício das funções de farmacêutico, e por vezes de médico, junto à população sofrida do interior do Estado, mais particularmente nos municípios de Quixeramobim e de Boa Viagem.

Rico de experiências e dotado de prodigiosa memória, seu trabalho profissional em parte está documentado nos livros publicados, especialmente em Avivando Retalhos e Recordações de um Boticário, em que se revela para futuros pesquisadores a testemunha privilegiada, com inúmeros registros e impressionantes detalhes dos costumes, dos hábitos, dos folguedos, das alegrias e do sofrimento do povo bom do sertão. Tal cenário de um passado já distante se encontra hoje quase completamente modificado em decorrência da vinda da estrada de rodagem, da energia elétrica e da influência da cidade grande através dos meios modernos de comunicação.

Intelectual dos mais respeitados, soube Antenor, não obstante a incessante atividade profissional, cultivar sempre as letras, conforme revelam a variada biblioteca e os trabalhos publicados, como crônicas, poesias, trovas, pesquisas filológicas e anotações das mais diversas no campo da historiografia e do folclore.

Não pertenceu a nenhum sodalício, pois julgava inadequada e infeliz tal palavra para designar associações literárias e científicas, mas a diversos silogeus, como a Academia Cearense de Farmácia (sócio benemérito), Academia Cearense de Letras (sócio honorário), Academia Cearense de Retórica (sócio efetivo) Academia de Letras Municipais do Brasil e Academia Sobralense de Estudos e Letras (sócio correspondente). Antes de integrar a Academia Cearense da Língua Portuguesa, Dr. Antenor foi assíduo freqüentador das reuniões mensais na tradicional Casa Juvenal Galeno e sua eleição, caso atípico, ocorreu por aclamação unânime e calorosa dos confrades, em submeter-se ao processo tradicional de seleção e de votação estabelecido pelo Estatuto. Os acadêmicos estavam convencidos de que o ilustre candidato e de votação estabelecido pelo Estatuto. Os acadêmicos estavam convencidos de que o ilustre candidato era uma figura ímpar, acima de todos os possíveis concorrentes, e merecia, por isso, tratamento diferenciado. Urgia inscrever seu nome no quadro dos sócios efetivos, para orgulho dos que á desfrutávamos sua companhia tão agradável e a sempre obsequiosa amizade. Ele, em contrapartida, sempre soube honrar o compromisso acadêmico, pela assiduidade às reuniões e pela produção incansável de valiosos trabalhos no campo da literatura e a língua portuguesa.

Com o coração puro, comparece esse valoroso varão diante de Deus, com a transparência de quem nessa terra só fez o bem, com a humildade daqueles que souberam penitenciar-se das eventuais fraquezas, com a confiança inabalável de quem sempre viveu e proclamou valores cristãos. Dr. Antenor soube empregar em sua longa existência toda a pujança na inteligência e o calor da emoção em prol do outro, especialmente do mais necessitado e humilde sertanejo.

Aos amigos restam o orgulho de haver convivido com um cidadão benemérito, de magnânimo coração, e a saudosa lembrança do acadêmico, que cultivou com tanta nobreza e fidalguia o companheirismo e a amizade.

Por Myrson Lima, da Academia Cearense da Língua Portuguesa, publicado no Jornal O Povo, edição de 08/07/2002.

Fonte: (http://www.angelfire.com/linux/genealogiacearense/index_antenor.html)

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Antenor Gomes de Barros Leal's Timeline

????
1903
July 9, 1903
Fortaleza, Ceará, Brazil
2002
May 15, 2002
Age 98
Fortaleza, Ceará, Brazil