Noé Gertel (1914 - 2002) MP

public profile

View Noé Gertel's complete profile:

  • See if you are related to Noé Gertel
  • Request to view Noé Gertel's family tree

Share

Related Projects

Birthdate:
Death: Died
Managed by: Lúcia Pilla
Last Updated:
view all

Immediate Family

About Noé Gertel

Noé Gertel, da resistência democrática às páginas dos jornais

Reinaldo Mestrinel e Silvano Tarantelli*

Perdemos um referencial. Morreu aos 87 anos o jornalista Noé Gertel, enquanto dormia na madrugada de 18 de fevereiro passado, em seu apartamento, na avenida Angélica, em São Paulo. Sua morte serena contrasta com a forma intensa e apaixonada como viveu, ao participar ativamente de alguns dos mais importantes episódios da história brasileira recente, como jornalista e militante político.

Sua vida poderia ser adaptada para o cinema, arte pela qual era apaixonado. Foi repórter, redator-chefe e crítico de cinema na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por mais de 25 anos. Com Joaquim Câmara Ferreira foi responsável, no pós-guerra, pelo Hoje, jornal do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e, nos anos 1980, pelo jornal Voz da Unidade.

Sua estréia no partido se deu em um comício, durante a Revolução Constitucionalista de 1932. O partido era contra, pois considerava o movimento fruto da oligarquia paulista do café. Para ingressar no PCB, Gertel deveria fazer um discurso atacando, ao mesmo tempo, o movimento e Getúlio Vargas. O jovem militante estava tão nervoso que seu discurso soou confuso e foi considerado a favor dos revolucionários paulistas. No dia seguinte, os jornais registravam que o movimento estava tão forte que até um estudante (Gertel estudava direito no Largo São Francisco) tinha se posicionado a favor dos revolucionários paulistas, arrancando aplausos da multidão com sua intervenção.

O episódio não o impediu de ser aceito pelo partido ao qual sempre foi dedicado. Contemporâneo de Carlos Marighella, ficou detido com ele no presídio da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, de 1939 a 1944, após o malogro do movimento da Aliança Nacional Libertadora (ANL), liderado pelos comunistas, ocorrido quatro anos antes.

Jamais mencionava sua participação nos movimentos de que participava; preferia destacar a importância histórica e a atuação de seus companheiros. Em um depoimento sobre sua detenção, Gertel elogia o ex-parlamentar Marighella, do PCB, que depois romperia com o partido e seria assassinado pela polícia após o golpe militar de 1964.

“Marighella era um líder na cadeia [...] Ele tinha um grande prestígio, tinha muito carisma, mas era simples, um baiano comum. A presença de Marighella foi fundamental na ilha, não só na vida política, mas na vida intelectual dos comunistas, dos aliancistas.”

Antes de ser transferido, passou seis meses em uma solitária. Quando foi para a Ilha Grande, sua situação era sensivelmente melhor do que a anterior. Na ilha podia movimentar-se. Os presos políticos conseguiram a construção de um local para receber visitas e ganharam a confiança dos presos comuns, ao dar aulas de alfabetização, cursos e conferências.

Na Ilha Grande, teve como companheiros Jorge Amado e dirigentes históricos do PCB como Agildo Barata e David Capistrano. Em uma passagem do livro Os subterrâneos da liberdade, o escritor baiano parece ter se inspirado em um episódio envolvendo a mulher de Gertel, Raquel, também militante comunista das mais destacadas.

Ela foi ao julgamento de Luís Carlos Prestes, durante o Estado Novo, no Tribunal de Segurança Nacional, quando o dirigente comunista fez a sua própria defesa e saudou o aniversário do Partido Comunista da União Soviética. Raquel, com a filha pequena no colo, o aplaudiu, e isso lhe valeu quinze dias de detenção.

Oduvaldo Viana Filho, genro de Gertel, também se inspirou no casal para compor os personagens da peça Rasga Coração.

Após ser libertado, Noé Gertel passa a trabalhar no jornal Hoje, já na legalidade do partido, onde foi redator-chefe. Um dos editores era o sociólogo Darci Ribeiro. No seu auge, o diário vendia mais exemplares do que os grandes jornais da época.

Em 1948, com o partido novamente na clandestinidade, a polícia tenta invadir e empastelar o jornal, que planejava publicar uma nota em homenagem ao aniversário de Prestes, no dia seguinte, 3 de janeiro. Noé Gertel e o dirigente comunista Joaquim Câmara Ferreira (também assassinado pela repressão do regime militar de 1964), a quem o jornalista sempre foi muito ligado, resistem à invasão até a manhã seguinte, quando conseguem contatar parlamentares do partido que ainda preservavam seus mandatos, entre os quais o físico Mário Schenberg e o historiador Caio Prado Júnior, para negociar a rendição. Enquanto trocam tiros com a polícia, convencem os gráficos a prosseguir imprimindo o jornal.

Com o golpe militar, Gertel se dedica quase que exclusivamente ao jornalismo. Já com dois filhos, Vera e Luiz Carlos, que viriam a ser jornalistas como o pai, necessitava sustentar economicamente a família. Isso não impede que os golpistas invadam a sua casa, agridam a sua mulher e levem-na presa, com o filho Luiz Carlos e o porteiro do prédio onde moravam.

Gertel é obrigado a se esconder e somente se apresenta à polícia após a direção da Folha fazer a intermediação. Na Folha, convive com Cláudio Abramo e, mais tarde, com Boris Casoy. Foi repórter, redator-chefe e crítico de cinema. Como tal, lidera uma campanha contra a censura e pela liberação do filme Rio, 40 graus, de Nelson Pereira dos Santos.

Em 1950, Gertel é processado por um major da Polícia Militar por publicar uma matéria em que o oficial é acusado por soldados de desviar verbas de um caixa de pensões. No processo, o oficial exige que Gertel revele suas fontes de informação. Ele se recusa e mais tarde é inocentado pela Justiça. O processo ganha as primeiras páginas dos jornais e se transforma em um marco da liberdade de imprensa.

Ao deixar a Folha é convidado, em 1980, a assumir o jornal Voz da Unidade, que faz campanha pela legalidade do Partido Comunista, onde permanece quase até o final da publicação. Noé Gertel era um homem de grandes projetos, mas pelo menos um deles não conseguiu realizar. Queria escrever um livro sobre Orlando Silva, “o cantor das multidões”, de quem gostava muito. Homem de grande cultura e magnetismo, deixa admiradores de várias gerações, que tiveram o privilégio de sua convivência.

“Conhecia o Noé há muitos anos. Homem que primou pela coerência na vida particular e pública. Jamais aceitou um cargo público. Até o final da vida, cuidou e contribuiu na medida de suas forças para o avanço democrático no país”, afirma Salomão Malina, presidente de honra do Partido Popular Socialista (PPS), partido onde Noé Gertel militava criticamente.

Noé pertence ao rol dos esquecidos pela história brasileira, cujo exemplo deve ser resgatado como parte da heróica resistência ao autoritarismo e pelo avanço democrático do país.

  • Silvano Tarantelli, jornalista e professor universitário; Reinaldo Mestrinel, jornalista e tradutor (companheiro de Noé Gertel no jornal Voz da Unidade, este foi o último texto de Mestrinel, que faleceu uma semana após a sua redação, vitimado por câncer. Aqui também prestamos ao camarada Mestrinel nossas homenagens (Nota da redação). NO V O S R U M O S A N O 1 7 • No 37 • 2002

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/veiculos_de_comunicacao/NOR/NOR0237/NOR0237_10.PDF

http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/conteudo/veiculos_de_comunicacao/NOR/NOR0237/NOR0237_07.PDF

http://acervo.folha.com.br/fsp/2002/02/20/15/82278

view all

Noé Gertel's Timeline

1914
March 26, 1914
2002
February 18, 2002
Age 87
????