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José Sobral de Almada Negreiros

Birthdate:
Birthplace: Sao Tome and Principe
Death: June 15, 1970 (77)
Lisbon, Portugal
Immediate Family:

Son of Antonio Lobo de Almada Negreiros and Elvira Freire Sobral
Husband of Sara Sancha Afonso
Father of Private and Private
Brother of Antonio Sobral de Almada Negreiros

Managed by: Private User
Last Updated:
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Immediate Family

About Almada Negreiros

  • Escritor e artista plástico, foi um dos fundadores da revista “Orpheu” (1915), veículo de introdução do modernismo em Portugal, onde conviveu de perto com Fernando Pessoa.
  • Além da literatura e da pintura a óleo, Almada desenvolveu ainda composições coreográficas para ballet.
  • Trabalhou em tapeçaria, gravura, pintura mural, caricatura, mosaico, azulejo e vitral.
  • No campo das letras escreveu teatro, romance, poesia, ensaio, crítica, etc.

Este perfil foi-me roubado…

A vida íntima de Almada Negreiros

02.12.2017 18:00 por Pedro Jorge Castro 162

A rapariga que rejeitou Almada tornou-se numa obsessão para o artista: escreveu dezenas de cartas à melhor amiga sobre esse amor não correspondido por Tareca e desenhou-a em várias obras suas. Órfão de mãe e abandonado pelo pai, só aos 41 anos é que teve uma família.

O miúdo José de Almada Negreiros a correr num longo corredor do colégio interno dos jesuítas de Campolide, o miúdo a fazer a curva e a esbarrar no director, que o agarra pelos ombros: "Diz-me uma coisa. Eu tenho 360 alunos e todos têm os olhos na cara, porque é que só tu tens a cara nos olhos?"

Obra de Fernando Pessoa divulgada em Nova Iorque Obra de Fernando Pessoa divulgada em Nova Iorque O jovem pintor e poeta futurista José de Almada Negreiros, uns anos mais tarde, a subir o Largo de Camões, com o seu cúmplice nas provocações, Santa-Rita Pintor, a caminhar atrás dele com um chapéu enterrado até aos olhos, a olhar para uma rapariga que desce e a fazer um comentário que leva Almada a acenar que sim com a cabeça, mas sem saber ainda que era a primeira vez que se cruzava com a sua futura mulher, a pintora Sarah Affonso, com quem casaria duas décadas mais tarde, em 1934. Primeira impressão dela: "Achei um rapaz elegante, bonita figura, mas de cara não achei, era estranho com aqueles olhos muito grandes, sérios e fixos nas pessoas."

Estes olhos grandes, sérios e fixos enfeitiçaram-se por essa altura, em 1918, pelos olhos verdes de uma rapariga loura a quem o pai pôs a alcunha de Tareca, precisamente por causa desses olhos deslumbrantes. Mas tinha dificuldades em declarar-se. E a rapariga loura também não lhe dava sinais que permitissem sonhar com um namoro. Tareca, ou Maria Madalena Amado, tinha então 16 anos, menos nove do que José de Almada Negreiros, que por essa altura já tinha desenhos publicados em jornais; já tinha quadros em várias exposições; já tinha decorado a alfaiataria Cunha, na Baixa, com quatro óleos seus; já tinha escrito o seu primeiro poema, A cena do Ódio (durante três noites em que não pôde sair de casa devido à revolta contra a ditadura de Pimenta de Castro em 1915); já tinha colaborado na revista Orpheu (com Fernando Pessoa – que lhe chamou "o bebé de Orpheu" por ser o mais jovem –, Mário de Sá-Carneiro, Amadeo de Souza -Cardoso, Santa-Rita Pintor, entre outros); já tinha publicado o Manifesto Anti-Dantas (a ridicularizar Júlio Dantas e os outros intelectuais conservadores, lido pela primeira vez em cima de uma mesa do Martinho da Arcada, com os outros clientes a saírem e a acharem Almada e os de Orpheu malucos); já tinha feito o seu Ultimatum Futurista às Gerações Portuguesas do Séc. XX (vestindo um fato -macaco XL em cima do palco do Teatro República). Já tinha feito tanto – e só tinha 25 anos.

TABEFES PELOS "MALDITOS BONECOS"

Teve desde bastante cedo consciência do que seria o seu destino, como o próprio escreveu: "[Fui] inúmeras vezes apanhado em flagrante pelos professores a fazer bonecos nas aulas, às escondidas. Muita descompostura, muito tabefe, muito castigo eu tive por causa dos malditos bonecos! (…) Diante das sete portas por onde se entra para a vida eu enfiei sem hesitação por aquela que tinha em cima estas quatro letras A, R, T, E."

Vivia numas águas-furtadas da Rua do Alecrim, com uma vista soberba, mas o filho da dona do apartamento exibia-se nu em cima do telhado durante a noite, aos berros. Uma vizinha pensava que era o próprio Almada que tinha aquele comportamento excêntrico, tal a sua fama em Lisboa, onde frequentemente participava em zaragatas nos cafés e se passeava de cabelo rapado à navalha de barba, vestido de azul-claro para espantar os transeuntes.

Quando chegava à Brasileira para tomar o pequeno-almoço, ia aos saltos por cima das mesas até ao balcão para fazer o pedido. E dava um pontapé nos pratos da balança que havia à entrada, para pesar os sacos de café. "Irra, isto é demais, parece maluco a chatear as pessoas", queixavam-se os velhotes ali sentados. Mas o bibliotecário Gualdino Gomes defendia-o: "O que vocês têm é inveja. Vocês foram homens antes do tempo, agora estão velhos e nunca tiveram a mocidade e a genica que ele tem! Isto faz mal a alguém? Deixem o rapaz saltar." Na mesma esplanada apareceu uma vez com um galgo todo pintado de verde, depois de acidentalmente o cão ter entornado os materiais de pintura.

Entretanto, o grupo de intelectuais reunidos à volta da revista Orpheu sofreu três perdas num curto espaço de tempo. Em 1916, Mário de Sá-Carneiro convidou um amigo para assistir ao seu suicídio, no quarto de hotel, em Paris. Em Abril de 1918, Santa-Rita Pintor morreu de tuberculose, tendo antes deixado instruções à família para destruir todos os seus quadros (apenas se salvou um). E em Outubro de 1918, Amadeo de Souza-Cardoso não resistiu à pneumónica. "Sobretudo os dois pintores, os quais conheci intimamente, fizeram-me muita falta. Talvez mais a mim do que ao grupo [do Orpheu]. Eu contava sobretudo com eles", assumiu Almada. Os três pintores tinham, por exemplo, rapado o cabelo e as sobrancelhas para selar um pacto: iam dedicar-se ao estudo dos Painéis de São Vicente. (Sozinho, não desistiu: em 1926, Almada descobriu que a disposição dos painéis era outra, por causa dos ladrilhos no chão – o que o levou a envolver-se numa cena de pugilato na Brasileira.)

ACOMPANHANTE NUM CABARÉ

Almada, que tinha então 25 anos, e ainda sentia um amor não correspondido por Tareca, partiu poucos meses depois para Paris. Chegou de Sud Express à gare Saint-Lazare no fim de Janeiro de 1919 e instalou-se numa pensão. Terá sentido uma paixão fugaz por uma domadora de cavalos, que o levou a trabalhar temporariamente num circo, mas a vida acabou por ser bastante dura, por falta de dinheiro (terá levado apenas 3 mil francos de Lisboa). Mesmo assim, recusou uma proposta de um marchand de arte judeu para pintar em exclusivo para ele, para não comprometer a sua independência artística.

Trabalhou então como bailarino de danças de salão em Paris e também em Biarritz, no cabaré Patapoom, de Homem Christo Filho (que seria depois o português mais próximo do ditador italiano Benito Mussolini; morreu em 1928 a caminho de Roma, num desastre de carro). No Patapoom, Almada Negreiros foi acompanhante de senhoras. A sua futura mulher, Sarah Affonso, dirá que ele dançava com as americanas que não tinham par. O próprio artista falou sobre esse período em que sentiu "uma infinita repugnância", numa entrevista em 1956: "Só um dançarino de cabaré sabe o que é o Inferno."

Em Setembro de 1919, em duas cartas que enviou para Lisboa, pediu ao poeta Acácio Leitão que lhe emprestasse dinheiro com urgência. "Meu caro Acácio, arranja-mos. Eu mereço-os, a minha vida depende nesta altura de seis mil francos. (…) Estou no momento mais aflito da minha vida." Pretendia, em conjunto com Homem Christo Filho, adquirir o capital da Chez Fast, uma casa de chá e salão literário então detida por Martinho Nobre de Mello, ex -ministro da Justiça, e por José Espírito Santo, presidente do BES, que viria a ser tio-avô de Ricardo Salgado. "Não posso infelizmente contar-te quanto de anormal se tem passado ultimamente na minha vida", angustiou -se o artista, que nessa altura considerava Martinho Nobre de Mello o seu "maior inimigo", a quem chamou "pulha de habilidoso". Pediu mesmo para ser publicado um anúncio na imprensa a atacá-lo.

Para deixar de trabalhar no cabaré, Almada pediu emprego a um dos seus frequentadores, dono de uma fábrica de velas de iluminação. Começou no posto mais baixo, a contar as velas e a arrumá-las nos armários, para ganhar 13 francos por dia. Vivia numas águas-furtadas da Rua de Notre-Dame de Lorette e comia uma refeição por dia. Três semanas depois foi aumentado: passou a fazer as encomendas postais e a ajudar o motorista da fábrica a descarregar as mercadorias.

A RAIVA FACE AO SILÊNCIO DE TARECA

Se a falta de dinheiro era um problema, a falta de amor tornava tudo mais negro. Ficou zangadíssimo quando soube, por um tio de Tareca, que a sua amada se encontrava temporariamente num hotel de Paris e não o tentou contactar. "Fui ao cais de Voltaire apanhar uma pedra muito bicuda de todos os lados e fui atirar com ela contra a esquina do Regina Hotel com toda a cautela para não partir os vidros das janelas e poder chegar a Lisboa. Já tinha achado o Regina Hotel o hotel mais bonito de Paris, mas depois fiquei-lhe com uma raiva. Não me disse nada. Nada. NADA. Há coisas que deviam ser proibidas. Eu, por exemplo. Já reparei que se eu não existisse funcionava tudo da mesma maneira. TUDO. Deus queira que ninguém saiba disto para eu continuar a existir."

Este excerto de um texto intitulado Impressões da chegada a Lisboa do enviado especial do nosso club em Paris foi publicado no jornal Parva, editado pelo "clube das cinco cores", formado em Fevereiro de 1918. Era composto por ele e por quatro raparigas bastante mais novas, todas da alta sociedade da época: Lalá, ou Maria Adelaide Burnay Soares Cardoso, a melhor amiga de Almada, era a Branca; a irmã de Lalá, Zeca (Maria José), era a Vermelha; Tatão, Maria da Conceição de Mello Breyner (filha do conde de Mafra, Tomaz de Mello Breyner), era a Azul; e Tareca, Maria Madalena Amado, a menina loira de olhos verdes por quem Almada se apaixonou, era a Roxa, "cor da paixão". Para elas, ele era o Zu ou o "coisinha verde".

Almada conheceu-as através de Gonçalo Mello Breyner, seu colega no colégio dos jesuítas e filho do conde de Mafra, que no seu diário fez várias referências aos bailados que ele organizou com as suas filhas e não só: "Este rapaz tem talento e faz-me a maior pena porque é pobre. Que bem elle desenha! Com que graça!"

As cartas que Almada enviou à sua confidente Lalá são preciosas para conhecer a intimidade do artista. Ainda de Paris, em Fevereiro de 1920, desabafou: "O único verdadeiro amigo que tenho tido é a arte. (...) Gosto imenso de estar sozinho com os meus lápis: é quando estou mais perto de vocês. Já consigo fazer coisas que eu gosto, em desenho. (…) Estive no Inferno durante alguns meses; vim de lá muito constipado e aborrecido. Mas já estou salvo. Trabalho com toda a alegria, todo o dia: faço 5 a 6 desenhos por dia e escrevo coisas. (…) Faço as coisas muito claras. Estou contente. Fiz uma garrafa tão parecida que o quadro caiu no chão e só a garrafa é que se partiu. Foi uma pena. (…) Coitadinhos dos outros. Eu estou cada vez mais eu; tão eu que já me encontrei: gosto de tudo o que está assinado Almada. Toda A Nossa Felicidade Adquirida Pela Nossa Cabeça Depende Do Nosso Coração. Um Homem Nunca É O Que Quer Mas Sim O Que Quer Ser O Seu Coração."

Estas cartas ficaram durante nove décadas guardadas numa gaveta, até serem lidas pela neta de Lalá, a escritora Mafalda Ivo Cruz. Ficou tão fascinada que acabou por entregar cópias à ensaísta e tradutora Joana Morais Varela, que era na altura directora da Colóquio/Letras, revista da Fundação Calouste Gulbenkian, e que está à procura de uma editora para divulgar em livro esse importante espólio. Além das 63 cartas, algumas das quais partilhadas agora pela primeira vez por Joana Morais Varela e pela família Ivo Cruz com os leitores da SÁBADO, há ainda um álbum de fotografias antigas e um diário de Lalá, escrito entre 1917 e a véspera do casamento com o maestro Ivo Cruz, em 1929, que é um retrato da época e está cheio de referências a Almada e ao seu amor obsessivo por Roxa – muitas vezes assumido no próprio jornal Parva.

Descreveu, por exemplo, o seu reencontro com Tareca e Lalá quando regressou de Paris, no dia em que completou 27 anos, em 7 de Abril de 1920: "Senti-me pequenino como a unha pequenina do dedo pequenino do pé direito porque o do pé esquerdo já não tem unha depois de um desafio de foot-ball contra o Freixo de Espada à Cintrense sport club há muitos anos nas férias de Natal um domingo de manhã com muita chuva e muitos pretos a verem o desafio. Todos me acharam muito magro. A Lalá pôs-se a olhar para mim com pena de mim. A Tareca pôs-se a olhar para mim com pena de mim. Os meus nervos já estavam a marcar perigo de morte. Os meus nervos já não eram nervos, eram chicotes. Achei a Lalá melhor e a Tareca melhor. Fiquei doido de alegria para dentro. A mim acharam-me pior."

A ESPADA NO CORAÇÃO DE PIERROT

Em Março de 1922, Almada ofereceu a Tareca um conto manuscrito, intitulado O Pierrot que nunca ninguém soube que houve – História trágica ilustrada com sol e palmeiras, em 10 folhas manuscritas e desenhadas. É a saga de um Pierrot (seria o próprio Almada) que viu uma menina loira de olhos verdes à janela de uma casa branca, no meio de um jardim de palmeiras – que seria a casa de Tareca, no jardim do Campo Grande. "Quantas mais vezes a menina loira dos olhos verdes viesse à janela, para ver as palmeiras, mais Pierrot prometia a si próprio sair um dia de trás da palmeira e dizer tudo claramente à menina loira dos olhos verdes." Só que enquanto o Pierrot espreitava, apareceu o Arlequim, um "rapaz destemido que lhe disse tudo claramente".

"Coitado do Pierrot! (…) Vendo que já tinha perdido a única vez de que tinha estado à espera, saiu definitivamente do jardim das palmeiras. (…) Pela noitinha, no jardim das palmeiras, lá muito ao longe, havia um par a passear. Então, Pierrot lembrou-se para que servem as espadas. Fui [sic] buscar uma e enfiou-a no coração de uma vez só e de lado a lado, para sempre. E assim se acabou, no fim de um dia e ao pé de uma palmeira, a trágica história do Pierrot, que nunca ninguém soube que houve!"

Em Maio de 1922, Lalá escreveu no seu diário: "O amor que mata é o que não quer morrer". Mas Almada não conseguia desistir. No Verão desse ano, foi passar uns dias à Quinta da Botelheira, em Óbidos, a casa do amigo Ayres Pinto da Cunha, mas adoeceu. No fim da carta à sua confidente, fez-lhe um pedido que mostra quão carente estava de um sinal de Tareca: "Há que tempos que trago um pensamento que escrevi para mim, e agora quero dizer-lho, e também peço para o mandar à Tareca na primeira carta que lhe escreva. O pensamento é assim: SE HOUVER ALGUÉM QUE NOS DIGA: GOSTAVA IMENSO QUE VOCÊ ME ESCREVESSE!… A GENTE DEVE ESCREVER, MAS ESCUSA DE ESPERAR A RESPOSTA PORQUE, AFINAL, NÃO ERA SENÃO UMA GENTILEZA."

A 7 de Abril de 1923, dia em que o artista completou 30 anos, Lalá mostrou-se inconsolável no diário por a amiga Tareca se ter interessado por outro homem: "Coitado do Zu, coitado, que a única coisa que espera da vida é ver a Tareca antes que ela goste de alguém… Coitado, coitado, que essa única coisa, tão pequenina, já não a pode ter…"

Além deste amor sofrido com desfecho triste, o diário evidencia também a extraordinária amizade entre Lalá e Almada e as respostas desconcertantes que ele era capaz de dar. Noutro aniversário do artista, registou: "Perguntei ao Zu o que é que queria que eu lhe desse pelos anos, que tinha tanta vontade de lhe dar qualquer coisa!... e ele disse: ‘O que eu quero que você me dê já me deu.’ ‘O que era?’ ‘Essa grande vontade de me dar qualquer coisa.’"

A MORTE DA MÃE E O ABANDONO DO PAI Enquanto o artista suportava a rejeição de Tareca, em 1921, António Ferro (que antes já tinha colaborado com o grupo de Orpheu) apresentou numa conferência A Invenção do dia claro, uma obra de Almada Negreiros recheada de referências à figura maternal: "Li o livro de Filosofia, não ganhei nada, Mãe! Não ganhei nada. (…) Mãe, passa a tua mão pela minha cabeça! Quando passas a tua mão na minha cabeça é tudo tão verdade."

A mãe morreu quando ele tinha apenas 3 anos. O avô materno, natural de Santarém e proprietário de duas roças em São Tomé (a Saudade e a São Jorge), não teve descendência do seu casamento, mas teve oito filhos ilegítimos de três outras mulheres naquela ilha africana (duas delas irmãs, nascidas em Angola). Isso não impediu que, em 7 de Abril de 1893, quando a sua filha Elvira deu à luz aquele que viria a ser o mais completo artista português, os padrinhos de baptismo tenham sido precisamente o avô materno e a sua esposa legítima. Não era avó de sangue, mas acabaria por tratar o pequeno José como se fosse um filho – o jovem artista dedicou-lhe mesmo um dos seus primeiros desenhos: "Para sua avó, com estima e amizade." E escreveu-lhe numa carta: "Também lhe quero dizer que não é só para desenho que eu tenho jeito, também para versos como verá."

Os pais de Almada conheceram-se em Cascais, em 1891. Ele, António Lobo de Almada Negreiros, era chefe dos correios e jornalista e poeta nas horas vagas. Ela, Elvira Sobral, tinha acabado os estudos num colégio em Coimbra e estava de férias em casa do pai, antes de regressar a São Tomé, onde tinha nascido. Acabaria por voltar ao arquipélago africano já com o seu futuro noivo, nomeado nessa mesma altura pela coroa para administrador do concelho de São Tomé. A madrinha de casamento de Elvira foi também a mulher legítima do pai. O parto de Almada foi tão difícil que foi noticiado no jornal A Família Portuguesa, com uma referência ao médico "que habilmente evitou um desenlace fatal". Menos de dois anos depois, os pais tiveram o segundo filho, António, e embarcaram rumo a Lisboa, para deixarem os dois rapazes com o avô materno e a sua mulher.

Em 1896, a mãe de Almada morreu pouco antes de dar à luz o terceiro filho. A angústia do marido, viúvo, é visível em vários versos que lhe dedicou: "Morreu quando ia ser mãe// De mais um filho! Oh que dor!// Não compreende ninguém,// Senão as mães, este amor" "E os outros dois filhos dela// Por quem morreu a chamar // Luzindo como uma estrela // Eu bem lhos via no olhar// (…) E eles supõem-na viva// E perguntam-me por ela// E uma lágrima furtiva // Vem na resposta singela…"

AS BATALHAS DE MIÚDOS NA CASTILHO O pai de Almada deixou São Tomé rumo a Paris, onde liderou a Exposição Colonial Portuguesa, e por lá ficou, tendo praticamente abandonado os filhos José e António no colégio interno dos jesuítas de Campolide, de onde lhe enviavam cartas quando viam os outros miúdos a sair nas férias: "Venha-nos buscar, o pai disse que vinha!" O pai mandava presentes evoluídos, mas não os vinha ver.

Fora do colégio, nas férias, viviam por vezes em casa dos avós e de uns tios na Rua Castilho. Num texto intitulado O pai, dedicado ao seu filho, José de Almada Negreiros descreve cenas hilariantes de pancadaria entre "os filhos dos vários moradores da Rua Castilho" e os miúdos de 10 anos dos outros quarteirões: "Nenhum dos da Rua Castilho era senhor de passar acompanhado por seus pais ou criadas pelas ruas mais próximas que não fosse logo enxovalhado por aqueles selvagens, com palavras se iam com as criadas e com gestos às escondidas se era gente da família. (…) Dia que não fosse pelo menos véspera de batalha não era dia. (…) O corpo a corpo foi desalmado e o que valia a todos era ser maior a fúria do que a arte de saber acertar golpes." No romance Nome de Guerra, Almada deixou uma ideia que poderá ter sido autobiográfica: "É sempre preferível a um tio ou a uma tia ou a um casal de tios um estranho para substituir os pais. Um cordão umbilical não se falsifica. Ou há ou não há." Já depois de ter saído do colégio, José não gostou de ouvir um comentário desagradável dos tios, com quem estava a viver. Levantou-se da mesa e perguntou: "Vens, António?" O irmão seguiu-o e tornou-se militar.

António Sobral de Almada Negreiros esteve preso por causa da revolta monárquica de 1919, quando José estava em Paris, mas depois foi comandante de uma divisão da PSP de Lisboa. Foi também um superatleta, praticando esgrima, hipismo e corta-mato, e toda a vida um grande cúmplice do irmão, com quem já adulto adorava brincar aos papagaios de papel. Era um sedutor, tendo à sua volta um "enxame de mulheres", como descreveria a futura cunhada. No fim da vida, casou-se com uma peruana rica e foi viver para Lima, onde morreu em 1964. O pai de José e António refez a vida em Paris, voltou a casar e foi correspondente do jornal O Século na I Guerra Mundial. Junto à foto onde pedia a acreditação do Ministério dos Negócios Estrangeiros, anexou estas linhas: "Aqui tem a efígie do belo moço que vai para a guerra. (…) Lá no front farei fotos amiúde e creio que as farei bem."

O filho José fez questão de não o procurar quando esteve na capital francesa, apesar das dificuldades financeiras que atravessou. "Eu nem por sombras iria para casa de meu pai e pelo contrário faria o possível para que ele ignorasse que eu estava em Paris. Eram razões particulares e fortes que me levavam a proceder desta maneira", escreveu ele em Pa-ta-poom, recordação de Paris. No resto da vida, quando soube que o filho se tinha casado ou tinha sido pai, António Lobo de Almada Negreiros enviou-lhe postais de felicitações para a Brasileira, do Chiado. Só voltaram a encontrar-se quando o artista esteve em Madrid, entre 1927 e 1932, de forma inusitada.

Depois de enorme sucesso como pintor em Espanha, Almada estava a ser homenageado no café Pombo. O pai tentou entrar, mas procuraram barrá-lo à porta, invocando que era uma festa privada em honra de um português. "De um português? Eu também sou português. Como é que ele se chama?" "José de Almada Negreiros." "Tem graça, é meu filho!" Não teve, afinal, graça – o encontro foi frio: o artista tratou o pai quase como um estranho e deu-lhe apenas um aperto de mão. Mal se falaram.

"PRESO FISICAMENTE" A UMA ITALIANA No campo afectivo, enquanto esteve em Espanha, Almada teve uma relação difícil com a filha de um cenógrafo italiano, Ione Mignoni. "Era uma linda rapariga, que acabava de se tornar bela mulher. Olhos e cabelos negros, apartados ao meio. A sua altura andava pela do Zé. Simpática, simples e amável. (…) Era atraente. Elegante e esbelta, mostrava em desfile, às madrilenas, vestidos acabados de inventar", descreveu o arquitecto Jorge Segurado, que passou com eles uma véspera de Natal.

Só que a italiana queria que o namorado português ganhasse muito dinheiro com os quadros. Almada acabou por admitir à futura mulher, Sarah Affonso, que "estava muito preso fisicamente a ela", pelo que pediu ajuda aos amigos: "Eu não tenho coragem de me desligar dela, estou muito preso. Peço-vos que não me deixem sozinho." Teve de ir o arquitecto Jorge Segurado com Almada buscar as coisas lá a casa. Assim que entraram, a rapariga desapareceu com Almada para o quarto. O arquitecto, cansado de esperar, deu uma palmada impaciente na mesa, que originou um ruído de tal forma estridente que a italiana e Almada apareceram e ela disse: "Vão-se embora, vão-se embora." O pintor português veio mesmo num comboio para Lisboa. Passados uns anos, recebeu uma carta de Ione Mignoni, que estava a viver em Milão, a pedir-lhe os desenhos que ele lhe tinha oferecido: tinha-os devolvido por orgulho, mas agora tinha saudades deles.

"O ALMADA VAI DAR UM BOM MARIDO" Quando voltou de Madrid, em 1932, José de Almada Negreiros passou por nova fase financeira difícil. Tinha perdido contactos e era complicado arranjar encomendas. Os empregados da Brasileira do Chiado chegaram a oferecer-lhe refeições, por ele não ter dinheiro para as pagar. Foi por essa altura que começou a falar com a pintora Sarah Affonso, uma das poucas mulheres que ousavam ir à Brasileira sozinhas. Fazia-o quase por desafio, mas também por ter estado duas temporadas em Paris nos anos 20 – teve de voltar para Portugal quando a mãe morreu, para tomar conta dos irmãos mais novos.

Decidiram casar-se em menos de um ano. "Olhe, acho que o Almada faz um bom casamento, você não", admitiu António Pedro à noiva. Já Fernando Pessoa transmitiu -lhe opinião oposta, numa conversa no café Martinho da Arcada: "O Almada vai dar um bom marido, porque na altura de ser rapaz, foi rapaz. Teve uma juventude certa."

Antes de morrer, em 1935, o poeta ainda visitou Almada em sua casa, para lhe oferecer um exemplar de Mensagem, com a dedicatória: "Ao José de Almada Negreiros (viva, Bebé do Orpheu!), com a amizade, a admiração e o entusiasmo de sempre, e um grande abraço." Mas teve grande dificuldade em convencer a empregada a deixá -lo entrar, convencida de que era um vendedor ambulante a impingir livros: "Vá-se embora que não queremos cá livros. Cá em casa não se lê disso."

Almada e Sarah Affonso casaram-se a 31 de Março de 1934 na Igreja de São Sebastião da Pedreira e foram passar a lua-de-mel à pensão Meira, em Âncora. "Agarrei no Almada quando ele estava no fim. Se não tivesse casado, tinha-se estoirado!", disse mais tarde a mulher, numa série de conversas registadas pela nora, Maria José, com um gravador escondido debaixo de um guardanapo, e publicadas no livro Conversas com Sarah Affonso.

Confirmou-se que o casamento lhe fez bem a ele: "No fundo, o Zé era um homem de casa. Gostava de ter uma casa, que nunca tinha tido. Agora, não tinha nada, nunca teve nada. Perdia a roupa, perdia tudo, não guardava nada. Um dia, o meu pai perguntou-lhe se não era melhor pôr a casa no seguro. "No seguro para quê, se eu não tenho nada, nada?!"

Sempre fez alguma impressão a Sarah Affonso este desprendimento do marido, tendo em conta que chegaram a viver com algumas dificuldades: "O José rebentava com todos os contratos, com tudo se a mais pequena coisa não corria bem. Não se prendia pelo dinheiro, apesar de precisar de dinheiro como toda a gente. Tinha coragem demais para a vida." Quando a mulher lhe chamava a atenção por dar desenhos com facilidade em vez de os vender, ele respondia-lhe: "Achas que eu não sei ganhar dinheiro? Ganhar dinheiro é fácil, é um jeito. Mas isso a mim não me interessa. (...) Quero só o suficiente para vivermos, isso é que é preciso e isso não falta."

Nos primeiros 16 anos de casados, viveram com os dois filhos num apartamento da Rua de São Filipe Nery, com a sala transformada em ateliê – o filho mais velho, José, futuro arquitecto, apanhou várias intoxicações com aguarrás de limpar os pincéis. O artista gostava de pintar à janela, mas também na cama, muitas vezes. "Logo que começa o frio mete-se na cama e só se levanta na Primavera. (…) É muito chato! Não calcula como ficam os lençóis ao fim do dia", desabafou Sarah a Fernanda de Castro, mulher de António Ferro.

Sarah Affonso praticamente deixou de desenhar nos primeiros anos do casamento. Por um lado, pela gestão da vida familiar; por outro, porque não recebia encomendas; por outro ainda, pela sombra sempre presente do marido. Depois de terem tido o primeiro filho, ela começou a pintar um quadro, ele olhou e disse: "Boa ideia, também vou fazer uma maternidade." Sarah já nem continuou, porque sabia que o quadro dele ia sempre ficar melhor.

Mas necessitava de cultivar a sua arte e retomou a pintura numas férias em Moledo do Minho, em 1937. O marido ficou em Lisboa a acabar os vitrais da Igreja de N. Sra. de Fátima, mas escreveu-lhe mostrando-se contente por saber que ela tinha voltado a pintar: "É preciso. Já tinham deixado de pensar em ti como pintora. E ninguém sabe desculpar uma mãe que depende do filho miúdo. Por mim, espero que virão a ter boa surpresa contigo."

"CHEGOU O MOMENTO DE TO DIZER" A mulher ter-lhe-á respondido que sentia necessidade que ele a admirasse. Almada demonstrou-o assim, na carta seguinte: "Minha querida Sarah, hoje não tive carta tua. Não tenho direito de me queixar. Mas faz falta receber notícias. Porém, como eu tenho obrigações fora de casa, mereço perdão de escrever menos. (…) Estou contente por saber que estás a pintar e quero dizer-te uma coisa: Sarah, tu não necessitas fazer nada para teres a minha admiração. Já a tens e há muito mais tempo do que talvez julgues. O que talvez não vejas [%C3%A9] a minha admiração por ti. E isto é que já é outro caso. Por mim, não ajudo a ninguém a sentir a minha admiração por ele. Pelo contrário, às vezes chego a dissimulá-lo. Em todo o caso, chegou o momento de to dizer: não necessitas de fazer nada para teres a minha admiração. É esta excepção que cada homem faz para aquela que ele escolheu para companheira da sua vida. (…) Adeus, Sarah querida e um grande beijo para ti e para o Zé e saudades à Ana. Zé."

Em 1941, Almada Negreiros esteve em Aveiro a pintar uns frescos na estação dos correios, que depois viriam a ser destruídos. Daí escreveu a Sarah Affonso, desolado, uma carta sobre o povo: "Hoje tenho reparado melhor na gente do povo. A impressão geral é desoladora.

Umas caritas bonitas, uns olhos doces, mas uma mágoa de tudo, uma carência, uma debilidade, um fim de raça palpável. Mentalmente zero. Apesar de tudo estamos numa das regiões mais ricas do País. Aqui há abundância e algum trabalho. Assim mesmo, a cidade que é airosa, está morta, apenas da feira que dura de 20 de Março a 20 de Abril. O caso português é muito sério. Nós temos de vir por eles. Mas como? Eu hoje sofri desta maneira portuguesissimamente."

Um claro contraste com as cartas que enviou à mulher de Itália, em Maio de 1956, durante uma viagem que fez com o irmão António e a cunhada. Em Florença, por exemplo: "Aqui tudo respira arte. As próprias pessoas são lindas, lindos rapazes, belas raparigas, belíssimas madonas e pitoresco tudo quanto é simples e humilde. Claro está que estás sempre presente no meu pensamento." Ou de Roma, cinco dias depois: "Itália é um país para quem tem olhos: o prazer da vista é manifesto."

Se alguém teve olhos foi de facto Almada Negreiros. Em Janeiro de 1970, um ano depois de ter feito enorme sucesso com a ida ao Zip-Zip na RTP, foi leiloado o quadro de Fernando Pessoa que tinha pintado para o restaurante Irmãos Unidos em 1954. Demorou três meses a pensar e dois meses a executar no seu ateliê na Quinta de Bicesse. A mulher quis ir assistir, ele resistiu, mas ela fez finca-pé: "Pois eu vou, acho que vai ser um espectáculo, sobretudo uma novidade, vamos ver a reacção do público. Se não queres vir, não venhas." Almada acabou por ir, algo nervoso, mas o leilão foi mesmo um espectáculo. Em cinco minutos o quadro passou dos cem aos mil contos. Acabou por ser vendido por 1.300 contos a um emissário de Jorge de Brito, tornando-se, à época, o quadro mais caro de um pintor vivo em Portugal.

José de Almada Negreiros adoeceria pouco depois e seria internado no Hospital de São Luís. Três dias antes de morrer, ainda gritou "Golo" quando o Brasil marcou no Mundial de futebol. Viria a morrer no dia 15 de Junho, no mesmo quarto onde faleceu, 35 anos antes, o seu cúmplice Fernando Pessoa.

UM TABU FAMILIAR COM 60 ANOS Doze anos depois da morte de Almada, uma adolescente do Porto, Guiomar Machado, chegou da escola e comentou com a avó que tinha tido uma aula sobre Amadeo Souza-Cardoso, Fernando Pessoa, Almada Negreiros… "Eu conheci o Almada muito bem", interrompeu-a a avó. "Mas… conheceu como?"

Foi então que Maria Madalena Amado, a Tareca ou Roxa do clube das cinco cores, na altura já viúva, há mais de 20 anos, de Domingos Leite de Castro, começou pela primeira vez a falar de forma mais expansiva a um elemento da família sobre essa extraordinária história da sua adolescência. "Ele frequentava a casa dos meus pais e dancei bailados dele. Desenhava maravilhosamente e era muito amigo do meu irmão [Fernando Amado]. Ele começou a desenhar varinas por causa de mim. Eu gostava muito de varinas e também desenhava varinas. Começou a fazer varinas para me agradar..."

A neta, Guiomar, ficou fascinada. No dia seguinte, a avó chamou-a: "Venha cá, tenho aqui umas coisas." E deu -lhe uns figurinos de bailado desenhados por Almada Negreiros. "Ela disse-me que ele era apaixonado por ela, que sofria muito, e que foi para Paris por causa disso. Ele gostava muito dela, mas não era recíproco. Ele oferecia -lhe muitos desenhos, ela recebia-os, mas não ficava à vontade. Alguns não aceitava, para não dar a entender que ele era correspondido. Não estou a ver a minha avó com Almada. Talvez não o achasse bonito fisicamente, mas admirava-o imenso, como artista e como amigo", recorda Guiomar Machado à SÁBADO, com base nas tardes de conversa com a avó. Ao todo, Tareca deixou aos filhos e netos uma dezena e meia de desenhos de Almada até aí desconhecidos. Algumas dessas obras estão expostas desde 3 de Fevereiro e até 5 de Junho na Fundação Gulbenkian, na exposição Almada – uma forma de ser moderno, que tem originado filas de espera superiores a uma hora ao fim-de-semana e foi vista por 30.007 pessoas no primeiro mês.

Depois das revelações da primeira conversa com a avó, Guiomar foi comentar o assunto com a mãe, Maria Teresa Cabral Machado, que admitiu à SÁBADO: "Nós, os filhos, não sabíamos de nada." A relação de Tareca com Almada Negreiros foi uma espécie de tabu familiar durante seis décadas. E por pudor e respeito ao marido, os desenhos de Almada permaneceram escondidos, sem serem emoldurados, durante 60 anos.

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Almada Negreiros's Timeline

1893
April 7, 1893
Sao Tome and Principe
1970
June 15, 1970
Age 77
Lisbon, Portugal